domingo, 25 de setembro de 2011

O Biro-Biro Violeiro

"Se alguém perguntar por mim,
diz que eu fui por aí
levando um violão debaixo braaaaço"

E ele apareceu no busão com seu violão. Trazia também uma gaita e uma voz grave e bonita. Era um tipo caucasiano, com cabelos louros encaracolados, um aspirante a Biro-Biro, mas que dava um tapa na rabiola (cortar o cabelo, caso vc não fale o dialeto).

A primeira vez que eu vi esse cara no ônibus quis aplaudí-lo de pé. Eu não falava inglês então achava as versões dele maravilhosas. Com o tempo descobri todo o engambelation. Ainda assim não deixa de ser encantador o esforço dele em apresentar um bom número musical. Percebe-se que, mesmo surrado, aquele é um bom violão, de qualidade, talvez o instrumento do auge de sua carreira musical.

"Em qualquer esquina eu paro em qualquer botequim
Eu entro e se houver motivo é mais um samba que faço"

Ele não toca sambas mas com certeza entra em botequins. Meu primo disse que uma vez ele e os amigos encontraram-no numa viagem e o chamaram pro bar.

"Se quiseres saber se eu volto diga que sim, mas só depois que a saudade se afastar de mim"

Uma vez tomei um pé-na-bunda e voltando triste pra casa encontrei o Biro-Biro violeiro. E naquela tristeza do coração partido fui obrigado a ouvir "Love Hurts" do Nazareth...(HAHAHAHA) Tudo errado.

"Tenho um vilão para me acompanhar, tenho muitos amigos eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira"

Era madrugada no busão, quase 1 da manhã. Eu e mais três gatos pingados sem sorte na vida naquele momento ouvindo cantos tristes no ônibus. Foi aí que um passageiro resolveu interagir: "Qual que é a sua meu irmão, sábado é dia de balada, você vai me fazer dormir aqui". Aí o Biro-Biro parou, pensou e convidou nós três e o cobrador para chegarmos mais perto dele. Como eu já tava perto, nem me mexi. O violeiro então puxou um clássico da breguisse nacional "Garçom".

Eu ali na minha melancolia realçada por Love Hurts de repente me vi num momento de euforia cantando com desconhecidos. Depois de garçom embalamos "O Passageiro" (Capital Inicial), "Infinita Highway"(Engenheiros do Hawaii) e, pasmem, "Highway to hell" (AC/DC).

O Biro-Biro foi embora.

"A saudade me doi, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela"

Saí da cidade, passei pela favela, cheguei em casa pensando nela. Pensei nelas, foram algumas já nessa breve vida. Ainda assim, tudo isso faz parte né? Como diz a letra a gente se permite isso até a saudade se afastar de vez.

Eu queria terminar com um final feliz, mas dia desses vi o Biro-biro com seu violão debaixo do braço tentando entrar no ônibus e sendo negado. 5 anos depois e ele ainda tá nessa. Por isso torço para que ele, que tem um dom musical tão bonito, consiga sair da infinita highway do ostracismo. Espero que na próxima vez que eu encontrá-lo, ele esteja num bar (como artista, não como bêbado) tendo mil motivos pra fazer um samba...

sábado, 17 de setembro de 2011

Embolada

Eu me emociono com essas coisas, amigos.



Nota: achei no youtube. Não fui eu quem filmei, mas já os vi.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Showmício

Caros amigos, vocês lembram do El Mago?

Pois é, depois de ter desaparatado de maneira cabulosamente inexplicável aquele dia, voltou a aparecer para alegrar as minhas viagens. E dessa vez ele voltou ainda mais criativo, agora ele era um político em campanha. Uma campanha esquisita se você levar em consideração sua apresentação:

"Boa noite a todos, hoje estou aqui em nome das Lojas Marabalas e das Casas Balinha, mas antes de vocês conferirem minhas promoções imperdíveis, devo dizer que estou em camapanha política, meus amigos, minha venda servirá para vocês me apoiarem na candidatura de  'Representante Internacional contra a exploração da Mais Valia corporativa" (algo assim)

PÁRA TUDO. Como assim um vendedor de balas em nome das lojas fantasiosas supracitadas me aparece apresentando um conceito marxista complexo para vender balas no ônibus? Cara, que papo de doido. Não tenho saco, então se você não sabe o que é Mais Valia pergunte ao oráculo.

Então nosso amigo vendedor começou uma intrigante história na qual ele envolvia Hugo Chavez (chaveiro chavez), Lula (Lula Moslusco) e George W. Bush, filho de Geoge Bush (Juninho). E, meus amigos, era um discurso admirável, lógico e acessível tão impressionante que ele fazia relação dos ataques de 11 de setembro com expeculação imobiliária, defesa das fronteiras amazônicas, políticas de crédito e corrupção. Fiquei boquiaberto, processando aquelas informações e me sentindo um completo babaca por estudar na maior universidade do país e não fazer disso uma oportunidade de retribuir a sociedade. Um vendedor de balas no ônibus faz mais que eu...

Olha a genialidade. Existe uma certa concorrência nesses serviços informais vendidos no ônibus e uma delas é a intervenção de músicos, que se apresentam na esperança de um troco. Enquanto o Marabalas discursava entrou um músico com seu violão. Esse músico um dia vai merecer sua história, pois é um grande personagem, mas por hora saibam que ele é um exímio violonista-gaitista-vocalista-backingvocal, que manda tão bem no embromation, que arranca aplausos...e moedas, claro.

Voltando a genialidade. Quando o vendedor viu o músico, gritou: "Mas claro que meu discurso não é em vão, para conseguir mais um pouco da atenção de vocês aqui está o meu amigo, estrela do meu SHOWMÍCIO". ao ouvir showmício o ônibus entrou na gargalhada.

Lembro vagamente que era uma daquelas viagens suplício, com chuva lá fora, janelas fechadas, ambiente abafado, trânsito e tudo aquilo me deixou bastante reflexivo. E com aquele vendedor de balas que um dia foi mago e naquele dia era político aprendi que não importa o quão ferrado vc esteja na sua vida, isso não deve te impedir de acrescentar na vida dos outros, nem que seja uma risada, nem que seja uma reflexão política, nem que seja uma música embromada...

Naquele dia ele disse uma frase clichê, mas que dado o momento ficou ecoando na cabeça para sempre: "quem quer, faz, quem não quer dá desculpas."