*Por André Santiago
Pegar o Jd Elba é sempre uma caixinha de surpresas.
Eu sempre prezei pelo meu conforto nas viagens de ônibus, principalmente naquelas que podem durar até 2 horas, portanto sempre que possível pegava o 476-G Jd Elba no ponto inicial, lá no meio da Sena Madureira.
Entrei no ônibus e já havia me preparado para dormir aquele sono das 18 horas com sol na cara pelo vidro e tremedeira incessante da Zona Sul à Zona Leste. Em pouco tempo estava acordado sem sol e sem tremedeira. Estava o ônibus parado na Domingos e Moraes e, para minha surpresa com poucos passageiros.
Uma olhada rápida e sonolenta percebi que havia algo errado. A cobradora estava de pé, na porta da frente e nada de motorista. Isso mesmo, nada de motorista. Depois de um minuto, volta o motorista ao ônibus, emputecido, a cobradora lhe dizia indignada: “o que foi que você fez???” com o que ele respondeu “o cara está com um a faca!”.
Pouco entendia do ocorrido, mas com a nova partida do ônibus foi possível entender o ocorrido. O ônibus havia fechado um Corolla, ambos pararam para tirar satisfação e o motorista com um soco quebrou (!!!) o vidro do Corolla. Ao voltarem ambos os motoristas para seus veículos passou-se a fazer um jogo perigoso de troca de faixas. O ônibus tentando desenvolver velocidade e o Corolla fechando sempre que possível. Em uma manobra que faria inveja a muito piloto de fórmula 1, o motorista do ônibus conseguiu um drible para ultrapassar o Corolla e fazer a conversão da Vila Mariana à Chácara Klabin sem sair do itinerário do ônibus.
Aqui cabe um aparte importante. Os motoristas dessa linha têm o costume de não ter muito amor ao passageiro, fazer as curvas em descidas da Chácara Klabin como se fosse um trenó do Jamaica Abaixo de Zero, fazer trechos que normalmente durariam uma hora em vinte minutos, mas, até mesmo por tudo isso, passamos a nutrir um carinho especial por esses malucos habilitados. Por isso mesmo que quando o jogo virou e o Corolla passou a ser o perseguidor, nos solidarizamos pela situação e ligamos para a polícia. Imagine que o responsável pela sua chegada em casa com rapidez e segurança (quando possível) esteja sendo perseguido por um maluco com uma faca?
A perseguição se manteve até a Ricardo Jafet, com o Corolla tendo a paciência de esperar o ônibus parar em cada ponto, tendo fim no Museu do Ipiranga. Os policiais nos fizeram descer do ônibus e protegiam o malévolo motorista do Corolla que, pudemos apurar, tratava-se de um senhor de 80 anos. Os policiais nos diziam que ele poderia ser o nosso avô e nós dizíamos que nosso avô nunca nos ameaçaria com uma faca.
A conclusão é que motorista, cobradora e velhinho do Corolla iriam para a delegacia, para grita geral dos passageiros. “E quem vai prosseguir a viagem?”. “Peguem o próximo”, e foi o que fizemos... aquele ônibus tranquilo, com quase ninguém foi brutalmente substituído por uma lata de sardinha ambulante e passei mais de uma hora de pé naquele maldizendo o velhinho e sua faca e o motorista que quebrara o vidro do tiozinho.
No dia seguinte perguntei o que que foi decidido e descobri que os distintos cavalheiros deixaram a delegacia sem fazer B.O. O velhinho do Corolla assumiu os custos com o vidro, o motorista ficou com o prejuízo da viagem e eu fiquei sem minhas horas de sono...