quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Batalha na Terra Média


O sociólogo Durkheim desenvolveu um intrigante estudo sobre o suicídio como fato social. Uma das estatísticas mais perturbadoras que ele encontrou foi a de que a maior incidência dos suicídios se dava no fim-de-tarde, lusco-fusco do domingo, sim aquele momento em que você vê a vinheta do Fantástico na Tv e se recorda da segunda-feira de sua vida depressiva que virá pela frente.
Foi andando de ônibus neste horário que eu vislumbrei mais ou menos o que ele queria dizer. Amigos, busão no domingo é um festival de cenas curiosas. Eu já peguei ônibus no domingo-fim-de-tarde com grupos de todas as torcidas organizadas da cidade (até da Portuguesa), já peguei ônibus com grupos religiosos fervorosos cantando seus cânticos dominicais num volume de som talvez maior que os de gritos dos estádios. Nem preciso contar os grupos de adolescentes voltando do parque do Ibirapuera causando no busão e o grupo de moças retornando depois de um belo dia panfletando anúncios de condomínios.
Ainda assim, acredito que nada foi tão perturbador quanto encontrar um grupo de nerds fantasiados para uma batalha imaginária. Acho que o próprio Tolkien teria vergonha alheia e aproveitaria o horário para endossar teoria a durkheimiana.
Eram umas 30 pessoas vestidas com armaduras feitas de papel laminado, cotas de malha de abridor de latinha, escudos de madeira, espadas de madeira, lanças de isopor. Mesmo nesse ambiente se distinguia ali uma velada disputa de classes. Os que tinham os melhores materias ficavam se achando, eram os líderes, ficavam explicando cada detalhe da confecção de suas armas de mentira..mas o que mais me chamava a atençao era como eles eram escandalosos.
Na minha mente preconceituosa julguei que, por serem nerds gordos espinhudos raramente saíam para a rua e tinha dificuldades para o convívio na sociedade, me perdoem. 
Foi aí então que no ônibus ao lado apareceu o clã adversário. Os do meu ônibus usavam roupas em que predominavam o vermelho e no outro ônibus, verde. Aí começou uma verdadeira batalha ao melhor estilo Terra Média. Uma corneta mega estridente quase me deixou surdo e logo em seguida gritos de Uruk-hai invadiram a Av. Lins de Vasconcelos.
Parecia que os motoristas de ônibus estavam combinados com os elfos e cavalheiros em disputa e mantinham seus veículos lado a lado. Uma menina, bonita até, veio até o meu assento e em tom solene me disse que eram tempos difíceis e por isso o rei decretou que toda a ajuda era necessária (HAHAHA). Antes de eu decidir por não aderir a batalha os caminhos dos onibus se divisaram.
A algazarra deu lugar a um silêncio quase mortal. Era tanta a decepção deles com o fim precoce da guerra que deu dó da cara triste deles. Achei que eles iriam chorar, mas ao invés disso acho que se deram conta de que o domingo tinha acabado e que uma segunda-feira viria pela frente. Aí eles se sentaram, ligaram mp3, dormiram, namoraram…seguiram o resto da viagem como viajantes normais.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

El Mago

Até onde vai a criatividade humana? O instinto de sobrevivência deve ser um dos maiores fatores de inspiração nesse mundão véio sem porteira. Quem de vocês, amigos usuários do transporte coletivo, nunca deparou com um vendedor de balas no ônibus? Aliás balas, mapas do Brasil, taboadas, piadas…é uma ampla rede de comércio informal desenvolvida. Uma rede tão complexa que as vezes penso estar munida de alto grau de instrução nas táticas de marketing direto. Recomendo a algum pensador um dia fazer análise dos discursos proferidos nesse ambiente repleto de possibilidades. 
Feita esta introdução apresento-lhes o vendedor de balas “El mago”. Melhor, ele vai se apresentar “Boa noite amigos viajantes. Viagem sim, todo mundo que pega essa linha faz um mega rolê casa-trabalho/ trabalho-casa, eu inclusive, já que estou aqui trabalhando. Acho muito chatos os vendedores de ônibus, mas como infelizmente a vida acabou me tornando um deles, tentarei aqui pedir a sua ajuda entretendo a sua viagem”. Após dizer essas palavras ele pegou um chapéu estilo Merlin, mudou para um sotaque castellano e disse “Me llamo El Mago”.“Yo farei una magica para ustedes, estan mirando este halls? Custa Un real na padariae outras lojas, mas aqui, señorita hable comigo “Abracadabra” (a moça repete) e aqui está. Agora custa 50 centavos, 3 por um real” Pois é tão tosco que era divertido.Depois de meia-dúzia de ”mágicas” eu já tinha voltado a ler meu livro. Aí eu ouvi um “oóóóóóóóoóóhhhhh”. O mago dava o troco para as pessoas com números de ilusionismo diversos. Tirava a moeda da orelha do comprador, fazia notas aparecerem no assento sem que alguém se levantasse e eu tive a impressão de que algumas pessoas só efetuaram alguma compra para ver mais um truque. Teve gente que deu dinheiro sem comprar nada. Você que leu até aqui esperando algo surreal, é óbvio que teve esse momento. El mago, começou a se despedir dos passageiros e quando o motorista abriu a porta de saída ele JOGOU UMA BOMBA NINJA, fazendo a maior fumaceira no busão…e obviamente sumiu na neblina.Manos, foi tão cabulosamente inexplicável que teve gente que aplaudiu, gente que tossiu, gente com medo de que o fogo de artifício explodisse o ônibus…Imediatamente o motorista parou o veículo para entender o que tinha acontecido…e sem resposta plausível prosseguiu viagem. E durante todo o trajeto os passageiros só falavam do mago: uns com os outros, ligando pra namorada, felizes, furiosos, mas de nenhuma maneira indiferentes.Algo me diz que aquela foi uma das últimas viagens do Mago. Cheguei a vê-lo novamente vendendo balas no ônibus, mas aí ali já tinha se tornado um outro personagem, que talvez um dia seja relatada aqui.