O sociólogo Durkheim desenvolveu um intrigante estudo sobre o suicídio como fato social. Uma das estatísticas mais perturbadoras que ele encontrou foi a de que a maior incidência dos suicídios se dava no fim-de-tarde, lusco-fusco do domingo, sim aquele momento em que você vê a vinheta do Fantástico na Tv e se recorda da segunda-feira de sua vida depressiva que virá pela frente.
Foi andando de ônibus neste horário que eu vislumbrei mais ou menos o que ele queria dizer. Amigos, busão no domingo é um festival de cenas curiosas. Eu já peguei ônibus no domingo-fim-de-tarde com grupos de todas as torcidas organizadas da cidade (até da Portuguesa), já peguei ônibus com grupos religiosos fervorosos cantando seus cânticos dominicais num volume de som talvez maior que os de gritos dos estádios. Nem preciso contar os grupos de adolescentes voltando do parque do Ibirapuera causando no busão e o grupo de moças retornando depois de um belo dia panfletando anúncios de condomínios.
Ainda assim, acredito que nada foi tão perturbador quanto encontrar um grupo de nerds fantasiados para uma batalha imaginária. Acho que o próprio Tolkien teria vergonha alheia e aproveitaria o horário para endossar teoria a durkheimiana.
Eram umas 30 pessoas vestidas com armaduras feitas de papel laminado, cotas de malha de abridor de latinha, escudos de madeira, espadas de madeira, lanças de isopor. Mesmo nesse ambiente se distinguia ali uma velada disputa de classes. Os que tinham os melhores materias ficavam se achando, eram os líderes, ficavam explicando cada detalhe da confecção de suas armas de mentira..mas o que mais me chamava a atençao era como eles eram escandalosos.
Na minha mente preconceituosa julguei que, por serem nerds gordos espinhudos raramente saíam para a rua e tinha dificuldades para o convívio na sociedade, me perdoem.
Foi aí então que no ônibus ao lado apareceu o clã adversário. Os do meu ônibus usavam roupas em que predominavam o vermelho e no outro ônibus, verde. Aí começou uma verdadeira batalha ao melhor estilo Terra Média. Uma corneta mega estridente quase me deixou surdo e logo em seguida gritos de Uruk-hai invadiram a Av. Lins de Vasconcelos.
Parecia que os motoristas de ônibus estavam combinados com os elfos e cavalheiros em disputa e mantinham seus veículos lado a lado. Uma menina, bonita até, veio até o meu assento e em tom solene me disse que eram tempos difíceis e por isso o rei decretou que toda a ajuda era necessária (HAHAHA). Antes de eu decidir por não aderir a batalha os caminhos dos onibus se divisaram.
A algazarra deu lugar a um silêncio quase mortal. Era tanta a decepção deles com o fim precoce da guerra que deu dó da cara triste deles. Achei que eles iriam chorar, mas ao invés disso acho que se deram conta de que o domingo tinha acabado e que uma segunda-feira viria pela frente. Aí eles se sentaram, ligaram mp3, dormiram, namoraram…seguiram o resto da viagem como viajantes normais.